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As pernas seguradas de Cristiano Ronaldo e a lição que vale para quem não é craque

  • Foto do escritor: Alessandra Bussab
    Alessandra Bussab
  • 30 de jun.
  • 4 min de leitura

Estimada em torno de 100 milhões de euros, a apólice que protegeu o ativo mais valioso do jogador ilustra um princípio que especialistas dizem servir para qualquer pessoa: a renda também pode, e deve, ser protegida.



Quando Cristiano Ronaldo trocou o Manchester United pelo Real Madrid, em 2009, uma cláusula do contrato chamou quase tanta atenção quanto o valor da transferência. Além do passe, o clube espanhol teria assegurado as pernas do jogador. As estimativas publicadas pela imprensa internacional ao longo dos anos variam bastante, de cerca de 100 milhões de euros a cifras ainda maiores, e nenhum valor foi confirmado oficialmente pelas partes. Confirmada ou não a quantia exata, a lógica por trás da apólice é direta.


Para um atleta cujo desempenho depende inteiramente da velocidade, da explosão muscular e da precisão dos pés, as pernas não são apenas pernas. São a origem de praticamente toda a sua renda: contratos, patrocínios, premiações e o valor da própria marca. Uma lesão grave, um lance infeliz ou um acidente em treino poderiam encerrar uma carreira e, com ela, apagar um patrimônio construído ao longo de anos. O seguro não evita o acidente. Ele garante que, se o pior acontecer, o valor gerado por aquele talento não desapareça junto.


Ronaldo não é exceção. Ao longo das décadas, atletas, modelos e artistas se tornaram conhecidos por segurar partes do corpo ligadas diretamente ao que fazem, das pernas às mãos. Os números costumam render manchetes, e parte deles nunca foi oficialmente comprovada. Mas o raciocínio financeiro que sustenta essas apólices é levado a sério pelo mercado de seguros e, segundo especialistas, vai muito além do mundo das celebridades.


"As pessoas se divertem com a história das pernas do Cristiano Ronaldo, mas poucas percebem que estão diante do mesmo problema que ele", afirma Alessandra Bussab, cofundadora da OneSeg, assessoria estratégica em seguros e créditos. "A diferença é que, no caso dele, o ativo estava à vista de todos. No nosso dia a dia, ele passa despercebido justamente por ser óbvio demais."


O ativo a que ela se refere é a capacidade de trabalhar e gerar renda. Quando se fala em patrimônio, a tendência é pensar em imóveis, veículos e aplicações, bens que aparecem em um extrato. A renda futura, porém, raramente entra nessa conta, embora costume ser o bem mais valioso de uma família. "Some tudo o que você ainda pode receber ao longo da vida profissional, com os anos que tem pela frente. Na maioria dos casos, esse número supera qualquer bem que a pessoa possua hoje", diz Alessandra. "Essa é a perna premiada de cada um. E é exatamente ela que costuma ficar desprotegida."


O caminho para proteger esse ativo, segundo a especialista, começa com uma pergunta simples, não com um produto: se a fonte de renda parasse amanhã, por quanto tempo a família ou o negócio continuaria de pé? "Quem responde a isso com sinceridade quase sempre encontra uma lacuna", observa. "O nosso trabalho é dimensionar esse risco e transferir parte dele para a seguradora, com soluções que façam sentido para o momento de vida e o orçamento de cada cliente. Não é vender apólice. É entender qual é o patrimônio invisível da pessoa e construir a proteção sob medida."


A versão cotidiana da apólice do craque


É nesse ponto que a história do jogador encontra a vida comum. A apólice de Ronaldo protege o valor que as pernas dele geram. Para a maioria das pessoas, o equivalente mais direto tem um nome conhecido: o seguro de vida. Apesar de ter sido construído em torno da palavra morte, ele funciona, na prática, como uma proteção da renda da família. "O seguro de vida não é sobre quem se vai. É sobre quem fica", resume Alessandra. "Ele garante que a ausência de quem sustenta a casa não venha acompanhada do colapso financeiro de quem dependia daquela renda."


A lógica se desdobra em camadas, conforme o risco que se quer cobrir. O seguro de vida responde pelo cenário mais extremo, o falecimento, assegurando que cônjuge e filhos mantenham o padrão de vida, quitem compromissos e preservem projetos de longo prazo, como a educação dos filhos. Mas há um risco igualmente relevante e bem mais frequente: o de a pessoa continuar viva e, ainda assim, deixar de poder trabalhar. Para esse caso existem coberturas voltadas diretamente à proteção da renda, acionadas em situações de invalidez, de doenças graves ou de incapacidade temporária, quando um acidente ou uma doença interrompe o ganho por meses ou de forma definitiva.


"Pouca gente percebe, mas o cenário mais comum não é partir cedo. É passar um período sem conseguir produzir", diz a especialista. "Por isso falamos em proteção de renda, e não em um único produto. Combinamos coberturas que respondem tanto pela perda da vida quanto pela perda temporária ou permanente da capacidade de trabalhar."


O resultado é menos uma apólice avulsa e mais um sistema de proteção montado sob medida: uma base de vida para amparar a família e, somadas a ela, camadas voltadas à renda e à invalidez para sustentar o presente. As coberturas e condições variam conforme a seguradora e o perfil de cada cliente.


O princípio, no fim, é o mesmo que levou um clube de futebol a blindar as pernas de seu maior jogador: identificar o que gera renda, calcular o impacto de perdê-la e transferir esse risco antes que o imprevisto chegue. A escala muda. A lógica, não.


Cristiano Ronaldo já entendeu o tamanho do que tinha a perder. Para o resto das pessoas, fica a pergunta: você já sabe quanto valem as suas pernas?

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