Tem gente de 26 anos comprando seguro de vida. E não é por causa de filho nenhum.
- Carolina Amorim

- 16 de jul.
- 4 min de leitura
Existe um tipo de mudança de mercado que não chega com aviso. Ela chega como uma exceção esquisita. Aquele cliente fora do perfil que ninguém sabe muito bem explicar, que o corretor comenta no grupo achando engraçado, que a gente registra como caso isolado e segue a vida. Até que a exceção vira a maior parte da carteira.
Por: Carolina Amorim | Sócia-fundadora da OneSeg
O seguro de vida no Brasil está exatamente nesse ponto. E a exceção esquisita da vez é um jovem de 20 e poucos anos, sem cônjuge, sem filhos, muitas vezes sem carteira assinada, contratando uma apólice por conta própria.
Isso não é curiosidade geracional. É reorganização de demanda. E demanda que se reorganiza sempre abre espaço para quem chega primeiro.
Vou dividir em três movimentos, porque é assim que eles chegam na mesa do corretor.
Mudou o motivo da compra
A pergunta que sustentou esse mercado por décadas foi: quem depende de você?
Para quem tem 25 anos hoje, a resposta honesta costuma ser ninguém. E aí a conversa acaba antes de começar.
Só que a pergunta certa nunca foi essa. A pergunta certa é: de quem você depende?
Esse jovem depende exclusivamente do próprio trabalho. Ele é autônomo, presta serviço, tem duas ou três fontes de renda que não se conversam. Não existe empregador para segurar a queda, não existe INSS relevante, não existe plano corporativo. Se ele para, a renda para junto. No mesmo dia.
Então o risco que ele está comprando não é a morte. É o mês em que não dá para trabalhar. É a cirurgia que apaga dois meses de agenda. É o diagnóstico que consome, em seis semanas, a reserva construída em três anos.
Isso está no que ele escolhe. Entre os jovens de 18 a 25 anos que já contrataram, oito em cada dez optam por planos com coberturas que dão para usar ainda em vida, segundo levantamentos do setor. Doenças graves, invalidez, telemedicina. A morte, quando entra, entra de carona.
O que isso significa para o corretor: quem abre a conversa falando de morte e de família está oferecendo um produto que esse cliente não está procurando. Quem abre falando de continuidade de renda está falando da única coisa que tira o sono dele.
Mudou a hora da compra
Nosso mercado aprendeu a esperar. O casamento, o primeiro filho, a casa financiada. Eram os três telefonemas que autorizavam o corretor a existir.
Esses telefonemas estão ficando raros. Metade dos jovens da Geração Z brasileira não tem casamento no radar imediato, e oito em cada dez não planejam ter filhos no curto prazo.
Leia isso como corretor, não como observador de costumes: os eventos em cima dos quais você estruturou sua prospecção inteira podem simplesmente não acontecer com uma parte enorme da sua base futura. Não é atraso. Não é fase. É outro projeto de vida.
Mas o gatilho não sumiu. Ele mudou de lugar.
Hoje o momento de entrada é o primeiro CNPJ. É a primeira cadeira alugada no salão. É o freelancer que fechou o terceiro contrato e entendeu, sozinho, que ninguém garante nada por ele. É a mudança de status: de alguém que tem emprego para alguém que tem renda própria.
O que isso significa para o corretor: esse cliente chega dez, quinze anos antes do que o perfil tradicional chegava. Ele começa com um ticket menor e uma vida inteira de revisões pela frente. Quem entra nesse momento não vende uma apólice. Constrói uma relação de décadas, com upgrade a cada virada de faixa de renda.
Mudou o jeito de comprar
Ele chega sabendo. Pesquisou, comparou, leu, viu vídeo. Não quer aula, quer clareza.
E ele desiste. Não no preço. Na burocracia.
É esse o ponto onde a maior parte do mercado ainda perde: no formulário que não acaba, no termo técnico que ninguém traduz, no processo que exige três ligações e uma semana de espera para uma pessoa acostumada a resolver a vida inteira em cinco minutos.
O que isso significa para o corretor: simplificar linguagem e jornada deixou de ser gentileza e virou vantagem competitiva. Quem simplificar conquista essa geração por décadas. Quem insistir no modelo antigo vai perdê-la antes mesmo da primeira conversa.
O tamanho disso não é leitura minha
É registro.
O seguro de vida cresceu 12,35% em termos reais em 2025, segundo a Susep. E, de acordo com o Relatório Mundial de Seguro de Vida 2026, da Capgemini e da LIMRA, 68% dos adultos com menos de 40 anos já enxergam o seguro como peça essencial da própria estabilidade financeira.
Junte as duas informações e o retrato aparece inteiro: o mercado está crescendo, e está crescendo puxado justamente pela faixa que a maior parte dos corretores não prospecta.
Tem dinheiro entrando por uma porta que quase ninguém está atendendo.
Preparação não é sobre prateleira
Produto todo mundo tem. Comissão todo mundo tem. O que vai separar os escritórios que crescem dos que encolhem nos próximos anos é preparo.
Preparo é revisar a abordagem. Se o seu discurso começa com "e se acontecer alguma coisa com você, quem cuida dos seus?", ele morre na primeira frase para uma geração inteira.
Preparo é revisar a lista. Se os seus contatos são todos casados com filhos pequenos, você está trabalhando um recorte cada vez menor de um mercado cada vez maior.
Preparo é revisar o processo. Se a sua contratação assume paciência do cliente, ela foi desenhada para um cliente que está saindo de cena.
A oportunidade deixou de morar apenas no pai de família. Ela mora em quem construiu a própria renda cedo, entendeu que ela é frágil e decidiu não esperar um evento de vida para se proteger.
Essa geração já está comprando. A pergunta que interessa é se o nosso mercado está pronto para vender.



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