O consórcio deixou de ser o Plano B
- Flavio William Peixoto da Silva

- 12 de jun.
- 4 min de leitura
Por anos visto como a opção de quem não tinha pressa, o consórcio virou a escolha de quem faz conta. Entenda por que a modalidade vem batendo recordes no Brasil e se firmando como a forma mais inteligente de adquirir bens.
Tempo de leitura: 6 min · Atualizado em 2026
Houve um tempo em que falar de consórcio soava como falar de paciência. Era a alternativa de quem topava esperar a contemplação em troca de fugir dos juros. Esse retrato ficou para trás. Nos últimos anos, o consórcio passou de coadjuvante a protagonista do planejamento financeiro do brasileiro, e os números explicam por quê.
Segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), 2025 fechou como mais um ano de recordes consecutivos. O setor encerrou o período com 5,16 milhões de cotas vendidas, uma alta de 15% sobre as 4,49 milhões registradas em 2024. Não foi um pico isolado: foi a continuidade de um ciclo de expansão que já se estendia por anos.
01 · O TAMANHO DO MOVIMENTO
Três indicadores que resumem a guinada do setor

O indicador de participantes ativos talvez seja o mais revelador. De acordo com a ABAC, ele vinha acumulando recordes mensais quase ininterruptos desde o início de 2022. Para efeito de comparação, em fevereiro daquele ano o sistema reunia 8,21 milhões de consorciados. Pouco mais de três anos depois, a base já superava 12 milhões. O brasileiro não apenas aderiu ao consórcio: passou a permanecer nele.
02 · POR QUE CRESCEU AGORA
Três forças empurraram a modalidade para o centro da mesa
O primeiro motor é o mais óbvio, e o mais doloroso para quem financia: o custo do dinheiro. Em um cenário de Selic elevada, os juros de um financiamento tradicional encarecem o bem de forma expressiva ao longo do contrato. O consórcio não cobra juros. O custo é uma taxa de administração fixa, diluída ao longo do plano. Em ciclos de juros altos, essa diferença deixa de ser detalhe e vira o argumento principal.
O segundo motor é silencioso: a educação financeira. A própria ABAC atribui boa parte do desempenho do setor ao avanço do planejamento como hábito e ao aumento da renda familiar. O consorciado de hoje não compra por impulso. Ele planeja, compara custo total e enxerga o consórcio como uma poupança programada com objetivo definido.
"O consórcio deixou de ser uma forma de comprar mais devagar. Virou uma forma de comprar de maneira mais inteligente."
O terceiro motor é demográfico. A modalidade deixou de ser território exclusivo de quem já tinha patrimônio. Segundo a ABAC, jovens profissionais, empreendedores e investidores passaram a usar o consórcio como estratégia de formação de patrimônio, muitas vezes combinando a carta de crédito com o FGTS para dar lances ou quitar o bem. Para uma geração que valoriza controle, previsibilidade e transparência, um plano sem juros e sem entrada obrigatória conversa diretamente com a forma como ela pensa dinheiro.
03 · CONSÓRCIO E FINANCIAMENTO, LADO A LADO
As diferenças que pesam no bolso e na decisão
As duas modalidades parcelam a compra, mas operam em lógicas opostas. O financiamento é um empréstimo: o banco antecipa o valor e o consumidor devolve com juros. O consórcio é uma compra coletiva e planejada, sem juros, com uma taxa de administração no lugar deles.

A leitura honesta é que não existe vencedor absoluto: existe o encaixe certo para cada objetivo. O financiamento entrega velocidade a um custo maior. O consórcio entrega economia em troca de planejamento. Para quem não tem urgência, a diferença no custo final pode representar uma economia relevante ao longo do contrato.
04 · NÃO É SÓ CARRO E IMÓVEL
O consórcio invadiu o cotidiano
O imóvel foi o grande protagonista do ciclo recente. Segundo a ABAC, o segmento imobiliário fechou 2025 com avanço de cerca de 36% nas vendas de cotas e perto de 48% no volume de créditos comercializados. As contemplações chegaram a representar quase um quarto de todos os imóveis financiados no país no período, somando recursos do crédito imobiliário tradicional e do consórcio.

Mas o crescimento mais simbólico aconteceu na ponta menos esperada. A modalidade passou a financiar não só grandes bens, e sim o dia a dia:
Eletroeletrônicos e bens duráveis, que registraram saltos expressivos nas adesões, sinal de que o consórcio entrou no planejamento de compras de menor valor.
Serviços, de intercâmbios a procedimentos de saúde e cerimônias, em planos sem juros e com parcelas que cabem no orçamento.
Veículos, que seguem como o maior segmento em número de participantes, com forte presença também entre motocicletas.
Esse espraiamento é o que diferencia o momento atual. O consórcio deixou de ser uma decisão pontual para a compra de uma vida e passou a integrar o planejamento financeiro de diferentes públicos e diferentes valores.
05 · O QUE ESPERAR DAQUI
A expansão deve continuar, com pés no chão
Para 2026, a ABAC projeta um crescimento de até 11% no sistema, apoiado na expectativa de inflação mais estável, em uma possível redução de juros e na manutenção do nível de emprego. Mesmo em um cenário de projeção mais moderada que os recordes recentes, a direção segue clara: o consórcio se firmou como ferramenta de planejamento, e não como modismo.
A maturidade do setor talvez seja o dado mais importante de todos. Quando uma modalidade financeira acumula anos seguidos de crescimento, atravessa diferentes ciclos de juros e amplia o público que a utiliza, ela deixa de ser uma aposta para se tornar uma escolha de quem planeja antes de comprar.
COMPRAR COM PRESSA CUSTA CARO. COMPRAR COM PLANO, NÃO.
Antes de assumir juros por um bem que ainda nem chegou, vale colocar o consórcio na conta. A pergunta deixou de ser se ele funciona, e passou a ser qual objetivo você quer planejar primeiro.
Por: Flavio William Peixoto da Silva, Especialista de Crédito e Consórcio na OneSeg



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